
o jorge salvou o meu trabalho com esse texto bonito. :) obrigada.
A concha é um orgão rígido, muitas vezes externo, característico dos moluscos. Ela é feita de nácar, substância secretada por células ectodérmicas destes animais.
Quando um molusco é invadido por um parasita ou outro objeto estranho que o animal não pode expulsar, entra em ação um processo conhecido como enquistação, por meio do qual a entidade ofensiva é envolta, de forma progressiva, em camadas concêntricas de nácar. Com o tempo formam-se pérolas.
Ninhos são estruturas de complexidade muito variável, podendo ser suspensos, presos no chão, ou até flutuar.
Os ninhos dos colibris são pouco maiores que um dedal. Na África, o Anthoscopus minutos constrói ninhos dotados de uma câmara falsa. Assim, as cobras entram no ninho e saem desapontadas, sem saber que o seu objetivo está escondido pela fina parede dessa antecâmara.
Luize Cornelius nos apresenta uma delicada casa de papel. Pouco que seja, as dobras dessa caixa já insinuam uma morada: a arquitetura do abrigo de Luize fornece os mínimos sinais convencionados para assim ser vista.
Mas Luize acrescentou à dobradura do papel outra camada de sentido, uma pele de riscos ocasionais ou desenhados: marcas da calcogravura. A segurança do traço que desenha janelas e telhas nesse ninho improvável não esconde sua fragilidade, deixando ver nas paredes as manchas do metal.
Não há entrada fácil no discurso dessa casa, que, por sinal, não possui porta. Telhas, muitas e mesmas, janelas de dimensões variadas, mas nada de entradas, e poucas aberturas: apenas nas suas dobras pequenos cortes evidenciam o conteúdo: algodão perfumado. Perguntei à artistam e ela me informou que os chumaços de algodão foram embebidos em óleo de lavanda.
Flores de lavanda, secas e embaladas em pequenos saquinhos de tecido de algodão, são postas entre as roupas do armário para dar-lhes uma fragrância fresca e agradável, além de repelir insetos e parasitas. Assim, pelas frestas da casa Luize faz perceber o sinal de um conforto, um pequeno agrado.
Não me pergunto a quem, nesse abrigo inacessível, a atenção de Luize conforta. Quero apenas indicar seu carinho em zelar pelo conforto de quem já não se deixa ver.
Carícia roçando o invisível, a casa de Luize é questão de fé. Credo quia absurdum no aconchego de uma casa que não nos é dado acessar.
A casa tem a medida dos sonhos: perto o bastante para ver, ainda assim inalcançável. Deslocado, o objeto desiste de ser casa e passa a ser memória de casa. Nos viramos para ver o ocupante dessa casa sair talvez pela janela, mas ele já se foi. Restam apenas sinais desse corpo sem rosto, uma soma de encantos, marcas, um cheiro.
Na difícil métrica dessa casa ideal, Luize – aliás uma moça bastante alta – duplica a infância. Olhando sua casa – ninho ou concha – penso uma curiosa menina de oito anos querendo descobrir o que há na gaveta mais alta do armário da mãe. A menina que suponho consegue puxá-la, e mesmo gaveta sendo alta demais pra se ver o que tem dentro, ela sente dançar no ar um cheiro de lavanda.